Um tesouro escondido no coração da Amazônia

Dessa vez nosso destino foi Velho Airão, uma cidade em ruínas, engolida pela imensa e densa floresta amazônica. Mas o que eu ainda não sabia era que o mais especial dessa cidade perdida não era sua arquitetura ou mesmo sua rica história, e sim um simples senhorzinho, que descobrimos ser o guardião do El Dourado.

***

Lá estávamos nós, em um barquinho de alumínio de poucos metros de comprimento e um metro de largura [conhecido como voadeira], serpenteando de lá para cá, seguindo as curvas do mais impressionante rio do mundo.

Ao olhar ao redor víamos aves e toda sorte de animais selvagens que tinham as margens do rio como sua varanda, e à frente um imenso espelho d’água que refletia um horizonte pintado apenas de verde e azul.

Barco.jpg

No caminho rio acima, em direção aos confins da Amazônia, enfrentamos uma forte tempestade com potentes ventos e chuva torrencial, chamada pelos locais de Banzeiro. Esse fenômeno tem a capacidade de, em um piscar de olhos, transformar águas calmas como um espelho em um superfície irregular e instável, com ondas que poderiam facilmente afundar uma embarcação diminuta como a nossa.

Felizmente, depois de algum tempo lutando para manter nossa embarcação [e nossas vidas] a salvo, conseguimos nos abrigar em uma pequena enseada na margem mais próxima do rio com dimensões de mar. Ali esperamos até que, como é de costume, o banzeiro perdesse força em menos de uma hora.

Depois do Banzeiro.jpg

Finalmente depois de várias horas de aventura e de dois dias desbravando o Rio Negro, chegamos ao nosso destino [Velho Airão].

Assim que deixamos o rio e começamos a caminhar por entre o que sobrou de paredes de tijolos vermelhos subjugadas pela força da floresta, imediatamente fomos tomados pela mágica atmosfera desse lugar.

Então, depois de caminhar algumas centenas de metros, vimos à distância, sentado em uma cadeirinha de balanço colocada sobre o gramado bem no centro do vilarejo, um senhor magrinho, mas de aparência saudável, tomando os últimos raios de sol do dia. Seu nome, Sr. Nakayama. E lá estava ele, em frente a sua humilde casinha de madeira, na qual um dos quartos foi transformado em um “museu”.

Shigeru Nakayama, veio para o Brasil ainda criança numa época em que muitos japoneses deixaram sua terra natal para fugir da guerra e buscar novas oportunidades em terras distantes. Desde então Nakayama já passou por várias cidades brasileiras, mas como ele mesmo diz: “Aqui é o lugar que escolhi para mim”.

Mesmo depois de mais de 50 anos no Brasil, Sr. Nakayama ainda carrega um forte sotaque, e foi com esse jeitinho que ele começou a nos contar a história dessa cidade, que mais parece ter sido tirada de algum filme de Indiana Jones.

Na época em que ele chegou, Velho Airão estava sob domínio da floresta amazônica, foi então que decidiu por conta própria, sem nenhum real apoio externo, começar a limpar e preservar a história do local. A cidade que já chegou a ser a maior da Amazônia durante a época da borracha, passou por um declínio vertiginoso, e ficou sem nenhum morador por décadas.

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Ficamos impressionados com a riqueza e beleza do local, mas o que mais me tocou foi a personalidade desse senhorzinho, que até me lembrou o meu querido avô. Nós passamos uma noite lá batendo papo com ele e vendo como era sua vida ali sozinho no meio da selva. Quando já era tarde fomos para nossa rede “de casal”, nos enrolamos nela, e passamos uma noite embalada pelos sons da floresta [confesso que alguns eram meio assustadores].

No dia seguinte era hora de voltar…

O Sr. Nakayama sempre recebe turistas e não faz isso por dinheiro, recusando qualquer forma de pagamento que lhe oferecem. Ele faz tudo isso pois com ele mesmo diz “Se eu deixar esse lugar, toda essa história vai estar morta.

 

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