Um mergulho na Amazônia de verdade

Seguindo o padrão brasileiro, no qual a população [em sua maioria] não tem nem noção do tamanho e importância do nosso maior patrimônio natural, eu demorei bastante tempo para colocar a Amazônia no topo da minha lista de próximos lugares a conhecer.

Mas felizmente este dia chegou. Numa cagada do destino, podemos dizer assim, um grande amigo tinha um monte de milhas que iriam expirar e, como ele sabia que eu [mais rápido que um piscar de olhos] teria a capacidade de liquidar este saldo, me deu esse grande presente de aniversário. Desta forma, gastando praticamente nada, embarcamos, eu e a Dani, para a internacionalmente famosa capital da Amazônia, Manaus.

Manaus é legal [e QUENTE], tem vários atrativos super legais a poucos quilômetros, por terra ou pela água. Mas se engana quem acha que fazendo estes roteiros na capital amazonense está explorando a Amazônia Brasileira.

E não pense que será perguntando na rua, ou mesmo na maioria das agências de turismo, que você irá encontrar boas informações de como chegar na “Amazônia de Verdade”.

Enquanto esperava o horário do passeio para o Encontro das Águas na recepção do Hotel Tropical, onde se encontra uma das empresas de turismo mais conceituadas de Manaus, fiquei tentando extrair algumas informações sobre a Amazônia. E o que percebi foi que as pessoas da própria empresa, assim como quase todos os manauaras, não conhecem muito bem a selva e o potencial turístico da imensidão verde que lhes circunda.

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De modo geral os passeios feitos pelos locais e turistas são baseados em pernadas de um dia, que não vão muito longe. Só para se ter uma ideia quase ninguém sabe da existência do Parque na Nacional do Jaú, uma das Unidades de Conservação, que na minha opinião melhor representam a verdadeira Amazônia Brasileira.

Então decidimos fazer algo que poucos fazem: sair de Manaus e mergulhar no coração da Amazônia.

A rota escolhida por nós foi subir o Rio Negro. Este rio além de ser incrivelmente grande e lindo, tem uma pequena peculiaridade que vai te fazer optar por ele. Ao contrário do rio Solimões, outro grande afluente do Rio Amazonas, o Rio Negro praticamente não têm mosquitos, o que se deve ao fato de suas águas serem um pouco mais ácidas e dificultarem a reprodução deste pesadelo dos viajantes.

Para ganhar tempo optamos por fazer o primeiro trecho da viagem (Manaus – Novo Airão) por terra, já que por mais que um seja mais longe, 200 km de estrada contra 130 Km pelo Rio, ainda é bem mais rápido pegar um ônibus (ou ir de carro) até Novo Airão. Esta cidade pode ser considerada o portal de entrada para uma Amazônia mais inacessível e consequentemente mais natural e preservada.

Bem em frente à cidade de Novo Airão está o Parque Nacional de Anavilhanas, um imenso arquipélago fluvial com ilhas e lagos de diferentes tamanhos e formatos, que de acordo com a época do ano apresenta diferentes paisagens, variando de extensas praias de areia branca à floresta alagada pela alta do rio.

Por mais que Anavilhanas tenha grandes atrativos e opções de passeios, como nosso objetivo era ir um pouco mais longe e em direção a lugares menos visitados, fomos direto nos informar com era possível chegar ao Parque Nacional do Jaú, quase na divisa com Roraima.

Sabendo que se você for procurar em agências de turismo os preços serão sempre mais caros, a melhor [mais barata] opção é conversar com os barqueiros que ficam próximo ao local onde se pode ver e tocar nos botos. Para conseguir bons preços unitários, não tem jeito, o bom é estar em grupo de pelo menos umas quatro pessoas.

Depois de barganhar bastante, como eles de modo geral preferem ganhar um pouco menos e perder o cliente, é possível que você consiga um desconto considerável. Foi o que fizemos. Mas como nós éramos apenas dois, o preço para cada um ainda ficou um pouco salgado, pois por se tratar de uma viagem longa (cerca de 300 km ida e volta), só o custo de combustível já é significativo. Mas vale muito [MUITO] a pena!

É necessário comprar os mantimentos para os três dias de viagem, pois como é de se esperar não há mercados ou restaurantes no meio da selva.

No primeiro dia passamos literalmente a tarde inteira, até anoitecer, navegando em uma voadeira (pequena embarcação de alumínio com um motor na popa) contornando as ilhas espalhadas pela imensidão de um rio que mais parece mar.

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E por falar em mar, o tamanho deste rio não é a única coisa que nos faz lembrar do mar. Há um fenômeno, chamado pelo locais de Banzeiro, que é causado pelos fortes ventos que anunciam a chegada de um chuvarada daquelas. Imagine você em barquinho de alumínio, de algo em torno de 5 metros de comprimento, no meio de rio de quilômetros de largura, com ondas de um metro, ventos intensos e uma chuva que não te deixa ver a mais de 20 metros à frente. Eu queria ter uma foto para mostrar para vocês, mas não pude registar este momento, pois estava muito ocupado tentando me manter vivo. Foi uma aventura!

Depois de horas e horas navegando, a última delas na escuridão da noite, conseguimos avistar ao longe uma luzinha de lanterna da dona da casa onde passaríamos a 1ª noite. Além de dormir numa rede, em uma casa que não tinha janelas ou portas, ao som da floresta que é cheia de vida durante o dia e a noite, passar a noite com essa família isolada do mundo nos fez passar por profundas reflexões.

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Fomos acordados por trovões, que logo se materializaram em uma chuva tipicamente amazônica (muito forte, porém passageira). Passada a chuva a manhã começou linda, os primeiros raios brotando por entre as nuvens que se dissipavam, de frente para o rio Jaú ainda crespo pelas gotinhas que caiam das árvores, os animas emitindo seus variados sons, e uma leve brisa fresca.

Com o amanhecer vem a necessidade de dizer tchau e pôr o pé na estrada [digo, no rio]. A primeira atração do dia, após descer alguns quilômetros do Rio Jaú, foi uma trilha em meio a uma floresta majestoso, densa e exuberante, com sons de insetos, aves e macacos em uma sinfonia tão relaxante que dá vontade de deitar e ficar olhando para o alto.

Depois de poucos minutos de caminhada chegamos, só nós dois e o nosso barqueiro/guia, à Cachoeira do Itaúbal, que depois de mostrar esta foto não preciso nem falar mais nada.

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Um pouco mais abaixo deste ponto tem umas corredeiras no Rio Carabinani, um afluente do Rio Jáu, mas estas corredeiras ficam visíveis apenas nos meses em que o rio está mais seco. Na época que fomos (final de agosto) o rio ainda está muito alto e encobre todas as pedras.

A última para do dia, e ponto de pernoite/acampamento, foi a vila de Velho Airão, que é tão interessante que vamos fazer um post só sobre ela.

Confesso que foi difícil deixar Velho Airão… A atmosfera desta cidade em ruínas era fantástica. Mas como já deveríamos estar acostumados, a vida é feita de chegadas e partidas. Enrolamos o máximo que pudemos para arrumar nossas coisas e tomar café da manhã e finalmente seguimos rio abaixo.

A última parada foi a Gruta do Madadá, uma formação rochosa que se estende por vários quilômetros em meio à floresta amazônica, que habitualmente não tem muitas elevações ou mesmo rochas.

Para fechar o tour, não poderia ser diferente, um último mergulho nas águas do Rio Negro, com auxílios de óculos de mergulho, pude ver como é esse universo subaquático e sombrio. É um ambiente de fantasia e certo amedrontamento, no qual seu corpo fica avermelhado como o dos botos e você não enxerga literalmente nada além de 1 metro do seu nariz. Uma sensação única.

Valeu a pena mergulhar na Amazônia de verdade!

 

Publicado por

Samuel Muylaert

Esse cara é pura energia! Engenheiro Ambiental, gasta todo seu tempo livre fazendo peripécias, surfando, saltando (de preferência dando cambalhotas) de lugares o mais alto possível em qualquer pedaço d’água, subindo montanhas, etc. Apaixonado por viagens e fotografia, está trilhando seu caminho rumo ao sonho...

5 comentários em “Um mergulho na Amazônia de verdade”

  1. Bom dia. Vc pode me passar o contato do barqueiro e guia que fizeram a viagem com vocês? Quanto pagaram. Estou querendo ir em outubro e acho que é melhor fazer isso que vc fez do que gastar 3 mil naquelas pousadas chiques no meio da floresta. Abcs

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